2º post - Reflexões sobre ameaças à biodiversidade

                                             Reflexões sobre ameaças à biodiversidade 



Como exposto no primeiro post do blogue Ver o Ver, a biodiversidade  é um assunto em debate por diversas vertentes do pensamento, cabendo analisá-la enquanto forma e conteúdo diretamente ligados a existência da humanidade. Entretanto, guardadas as importâncias sobre variedade biológica nos ecossistemas do planeta como primordiais para a manutenção da vida, esse texto tem como foco as reflexões a cerca de alguns exemplos atuais de ameças à perpetuação do equilíbrio e diversificação da fauna e flora diante das influências da ação humana, em nível social, político, econômico e ambiental.
Ao retornarmos ao bioma brasileiro Caatinga, (destacado no 1ºpost) podemos verificar a grande presença de variedade biológica no ambiente, mesmo que as condições de solo e umidade no primeiro momento não sejam vistas como atrativos para tal. As condições históricas, edáficas e climáticas, como acrescenta (Proença, Queiroz, Araújo e Pereira, 2009) são em conjunto, fundamentais para a ocorrência da biodiversidade e, ao sofrerem influência direta ou indireta desencadeiam significativas alterações por exemplo, no clima, na formação do solo e na inter-relação das espécies.
De acordo com  Millennium Ecosystems Assessment (2005) existem cinco indiretos fatores determinantes das mudanças na biodiversidade e nos serviços ecossistêmicos, sendo eles demográficos, econômicos, sociopolíticos, culturais e religiosos, científicos e tecnológicos. Embora ao longo do tempo as mudanças na biodiversidade tenha se dado também por causas naturais ( longividente natural de espécies), as mudanças atuais nos ecossistemas sofrem influências dos fatores antropogênicos. Para exemplificar essa tese, o Millennium Ecosystems Assessment (2005) destaca 

In particular, growing consumption of ecosystem services (as well as the growing use of fossil fuels), which results from growing populations and growing per capita consumption, leads to increased
pressure on ecosystems and biodiversity. Global economic activity increased nearly sevenfold between 1950 and 2000. Under the MA scenarios, per capita GDP is projected to grow by a factor of 1.9 to 4.4 by 2050. Global population doubled in the last 40 years, reaching 6 billion in 2000, and is projected to reach 8.1–9.6 billion by 2050 in the MA scenarios. The many processes of globalization have amplified some driving forces of changes in ecosystem services and attenuated other forces.( Millennium Ecosystems Assessment, 2005, p. 8) 

As diferenças no consumo e a crescente população mundial ao longo do tempo acarretou em modificações significativas no processo de exploração de recursos naturais. Nos últimos 50 anos, as mudanças de gestão governamental ( autoritárias e democráticas) trouxeram para o panorama sociopolítico ações culturais divergentes sobre implicações a respeito da preservação e uso correto dos recursos. Destaca-se no texto o fator tecnológico como uma via dúbia positiva e negativa, em que ao mesmo tempo que possibilita uma eficiência no uso dos recursos, por outro lado acabam por fornecer meios para maior exploração dos recursos e consequentemente um efeito cascata de desequilíbrio ambiental. 


As mudanças no modo de uso, manutenção e exploração dos recursos naturais, principalmente no que consiste as atividades econômicas de cultivo e agricultura tem estado cada vez mais aceleradas e crescentes, ocupando parte significativa dos territórios do globo. De acordo com Millennium Ecosystems Assessment, (2005) prevê-se que exista um aumento das áreas de florestas convertidas para agricultura e exploração em pelo menos 20% até 2050. Embora a expansão da agricultura tenha provocado desenvolvimento econômico mundial, essa atividade tem acarretado fatores negativos à perda da biodiversidade. Não apenas a agricultura, mas a própria criação de gado por exemplo é uma atividade que possui muito influencia na quantidade de abastecimento de água, cuja demanda é alta. 

As mudanças climáticas estão muito relacionadas a crescente demanda dos seres humanos por recursos e consequentemente há um aumento na exploração para acumulação e usos desses recursos. De acordo com Bacelar-Nicolau, P., Azeiteiro, U.M. (2015) são perceptíveis diversos impactos bióticos e abióticos nos ecossistemas em função das alterações climáticas, seja do ponto de vista da formação do solo, redes alimentares, serviços de polinização, ciclagem de carbono e nutrientes e inter-relação entre espécies. A resposta da mudança do clima é identificada por exemplo na variação da fauna e flora, fisiologia dos organismos e na própria dinâmica do ecossistema.
Destaca-se que a vida na Terra apareceu pelo menos há 3,5 bilhões de anos, e foi se expandindo na medida do tempo e eventualmente transformada por eventos como extinção de espécies em massa. Entretanto, estima-se que exista um total de 10 a 14 milhões de espécies reconhecidas e catalogadas em que pelo menos 89% ainda não foram identificadas ou descobertas (Mora el al., 2011 apud Bacelar-Nicolau, P., Azeiteiro, U.M. ,2015)

De acordo com Millennium Ecosystems Assessment, (2005) as taxas de perda da biodiversidade estão em ritmo crescente e acelerado, em função das mudanças ocorridas em seus ecossistemas principalmente relacionadas às ações humanas. Assim diz: “Biodiversity is declining rapidly due to land use change, climate change, invasive species, overexploitation, and pollution. These result from demographic, economic, sociopolitical,cultural, technological, and other indirect drivers.” (Millennium Ecosystems Assessment, 2005, p 42)

A partir do que já foi exposto na relação entre Homem e Natureza e nas formas de uso, manejo e exploração dos recursos dela utilizados, destaca-se nesse texto um acontecimento em território brasileiro como forma de facilitar o entendimento sobre as influências da ação humana na natureza de maneira a contextualizar as ameaças à biodiversidade e os habitats ao sofrerem alterações a partir das práticas humanas incorretas ou agressivas. Para isso, será destacado o caso do rompimento da barragem de mineração na cidade de Brumadinho, localizada no Estado de Minas Gerais. 




Efeitos do Homem: O caso da barragem de Brumadinho-MG





Desastre de Brumadinho.Imagem retirada da plataforma Google. 2019 
No ano de 2015 o Brasil entrou em alerta com a notícia do rompimento da barragem de mineração da empresa privada Samarco no município de Mariana, Estado de Minas Gerais. Os veículos de comunicação junto à equipe de segurança e resgate estavam e alerta a procura de informações sobre as causam que nos levaram a esse desastre ambiental. Entretanto, poucos anos depois, no ano de 2019, o Estado de Minas Gerais voltou a ser palco dos holofotes nacionais e internacionais ao se deparar com mais um rompimento de barragem, mas dessa vez uma outra cidade, Brumadinho.
A ocorrência do rompimento da barragem, cuja responsabilidade é da empresa Vale do Rio Doce trouxe para a pauta das discussões sobre preservação ambiental mais um ponto importante como um desafio para a gestão governamental. A barragem, de acordo com a reportagem do Jornal Estado de Minas possuía cerca de 86 metros de altura, e o mar de lama criado acarretou em 270 mortes confirmadas além das mais de 22 desaparecidas, além dos prejuízos ao meio ambiente natural com a poluição das águas, em especial o principal rio chamado São Francisco que abastece Brumadinho e municípios vizinhos. Além disso, a população humana afetada dependia exclusivamente do abastecimento de água e alimento a partir das ações voluntárias comovidas com a situação.
De acordo com a reportagem do O Globo, a lama com conteúdo tóxico afetou uma quantidade considerável de território, aproximadamente 125 hectares de florestas foram perdidos além da perda imensurável da variedade biológica existente. A tragédia de Brumadinho não só afetou a cidade, como também teve seus efeitos sentidos em outras cidades próximas como Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo que foram submersas pela lama.
Entretanto, é importante destacar que o acontecimento das barragens acarretou em um desdobramento sócio-político em que o Governo Federal propôs mudanças na forma de governança de políticas ambientais tratando de maneira mais rígida as possibilidades de licenciamento de barragens e fiscalização mais efetiva. Especialistas destacaram que o acontecimento do rompimento muito pode estar relacionado a própria construção da barragem, que apesar de ser comum, oferece brechas para problemas. Além disso, descobriu-se que a barragem foi construída em 1976 e adquirida pela empresa Vale em 2008 e permanecia inativa desde 2015. Todavia, ainda que tenham existidos esforços políticos para a exploração dos recursos e utilização do meio e minério, ainda se caracteriza como um fato desafiante, uma vez que permanecemos caminhando para processos de degradação ambiental e perdas da biodiversidade.
Vale lembrar que no Brasil existem um total de 839 barragens de rejeitos de minério e muitas delas estão sem devida fiscalização e licenciamento para operarem, o que resulta em possibilidades de futuras catástrofes se não forem estabelecidas de maneira prática as diretrizes de preservação e fiscalização das políticas ambientais vigentes. O acontecimento das barragens ainda será sentido por longos anos até a natureza se regenerar e talvez exista casos irreversíveis para tal, dependendo das circunstâncias postas.

Por fim, esse texto é uma proposta para realizarmos uma reflexão sobre as interações do Homem com a natureza e em que medida podem se tornar saudáveis para que sejam minimizados os efeitos negativos e as alterações do meio ambiente em prol de uma economia e sociologia sustentável. Para além, é importante percebermos a longa caminhada para se estabelecer melhor fiscalização, licenciamento, uso, exploração e manutenção dos ecossistemas de maneira que não nos tornemos cada vez mais uma ameaça a biodiversidade e à nossa própria existência. 

Texto: Paola Pessoa 


Desastre de Brumadinho.Imagem retirada da plataforma Google. 2019 



Desastre de Brumadinho.Imagem retirada da plataforma Google. 2019 



Desastre de Brumadinho.Imagem retirada da plataforma Google. 2019 


Vídeo retirado da plataforma online Youtube. 2019





Bibliografia utilizada

 

 

Bacelar-Nicolau, P., Azeiteiro, U.M. (2015) Changes in flora and fauna on terrestrial and aquatic environments as the climate warms. Universidade de Coimbra, pp. 1-15

ESTADO, Minas, (2019). Reportagem: Quatro anos após desastre de Mariana, cidades fantasmas emergem da lama. Disponível em https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2019/11/02/interna_gerais,1097978/quatro-anos-apos-desastre-de-mariana-cidades-fantasmas-emergem-da-la.shtml. Acesso em 05 de novembro de 2019.

JORNAL, G1(2019). Reportagem: Impacto ambiental da tragédia de Brumadinho 'será sentido por anos', diz Fundo Mundial para a Natureza. Disponível em https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/01/30/impacto-ambiental-da-tragedia-de-brumadinho-sera-sentido-por-anos-diz-fundo-mundial-para-a-natureza.ghtml. Acesso em 05 de novembro de 2019

Millennium Ecosystems Assessment (2005). Documentação da UC Biodiversidade, Geodiversidade e Conservação 2019, UAb Plataforma de E-learning, Consultado em 2019.

 Proença, V; Queiroz, c; , Araújo, M, Miguel  e Pereira, H. (2009). Biodiversidade. Documentação da UC Biodiversidade, Geodiversidade e Conservação 2019, UAb Plataforma de E-learning, Consultado em 2019,  pp. 1-54




Comentários

  1. Parabéns pela utilização de exemplos muito interessantes em cada post. Gostei de ler :)
    Susana Nunes

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  2. Olá Paola,

    Obrigado por lembrares essa terrível tragédia de Brumadinho. Um caso que pela sua magnitude e intensidade ilustra bem que impactos ambientais geram necessariamente vítimas humanas. Infelizmente são quase sempre aqueles em situação de maior precariedade, e que menos contribuiu para esse impacto na natureza, os primeiros a sofrerem as piores consequências.

    Espero que esta tragédia sirva ao menos para prevenir outras, melhorando o quadro legislativo, e que justiça possa ser feita para com as vítimas. A mineração é um negócio de milhões, não faz sentido que as vítimas dependam da boa-vontade alheia, elas têm que ser justamente compensadas. Da mesma forma deverão ser os responsáveis morais pela tragédia os financiadores da recuperação dos habitats destruídos pelo rompimento da barragem.

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  3. Paola

    Gostei bastante dos temas abordados, nomeadamente do exemplo da barragem de mineração. Fico cada vez mais assustada com a ligeireza que as entidades públicas e privadas lidam com estas questões. O valor da vida humana e da natureza está reduzido ao mínimo. Se voltarmos algum tempo depois, aos locais onde ocorrem estes acidentes, ficamos incrédulos o que que se fez para melhorar a segurança de todos os seres vivos. Fátima Carvalheiro

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  4. Parabéns Paola, excelente artigo. Relembrar Brumadinho é extremamente pertinente. A proximidade temporal do acontecimento fez-me pensar como a comunicação social vive dos picos de tragédia mas depois remete rapidamente para o esquecimento. No entanto, a noticia saiu. Pensemos agora, em quantos casos são omitidos e nas suas possíveis dimensões, como poderão anular por completo acções concertadas de preservação do meio ambiente e as relações internacionais já por si frágeis?

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