Reflexões e ameaça: geodiversidade


Na publicação anterior, falamos sobre as ameaças à geodiversidade presente no Aquífero Guarani e sua relação com o uso e exploração de seus recursos pela ação do ser humano. Entretanto, como caso de curiosidade e conhecimento, a pretensão desse post é de alertar sobre um outro exemplo de ameaças ao patrimônio geológico do município do Estado do Rio de Janeiro e no qual eu habito, chamado Niterói.  

O patrimônio geológico o qual eu me refiro é conhecido por sua composição rochosa de intrigar os olhos do imaginário cultural, que guardadas as histórias do passado colonial e indígena, passam a formar identidade e significado nessas pedras compostas nas margens da Baía de Guanabara. Sendo assim, seu nome foi batizado culturalmente de “Pedra do Índio” pela semelhança na forma como as pedras estão alocadas naturalmente fazendo parecer o formato de rosto e cocar de um índio, que pelas históricas culturais, poderia ser a imagem geológica de um dos índios líderes na região de Niterói durante o processo de ocupação colonial.

Assim como a biodiversidade, o termo geodiversidade tem liderado múltiplas discussões e pensamentos a respeito de sua definição, em particular especialistas do continente europeu e Austrália, Brilha (2005) sendo um conceito relativamente recente de acordo com Gray (2004), tendo surgido durante os anos 90 na Conferência de Malvern sobre Conservação Geológica e Paisagística, realizada no Reino Unido. Brilha (2005) A definição da Royal Society for Nature Conservation do Reino Unido:

“A geodiversidade consiste na variedade de ambientes geológicos, fenômenos e processos ativos que dão origem a paisagens, rochas, minerais, fósseis, solos e outros depósitos superficiais que são o suporte para a vida na Terra.” (Brilha, 2005, p. 17)

Para Gray (2004 e 2013) e Brilha (2005) grande parte das ameaças à geodiversidade estão ligadas à exploração de recursos geológicos. Ao contextualizarmos a Pedra do Índio, podemos nos referir que a exploração do conteúdo rochosos está mais vinculada aos termos culturais e atividade de retirada de mexilhões ao entorno. Sua localização é considerada de relevância, visto que  permanece em um dos bairros mais nobres da cidade e central, atraindo turistas e movimentos de citadinos tanto para o comércio quanto para entretenimento com parques, shopping, praia entre outros.

Contudo, percebe-se ao longo dos anos, com a grande expansão urbana na região de Niterói, que houve diversos efeitos ao meio ambiente natural a partir da ocorrência de crescimento populacional e consequentemente maior demanda por terra para moradia e produção, agricultura, mudanças nos traçados naturais dos rios, desmatamentos, e poluição da Baía de Guanabara.
Assim, a Pedra do Índio, tão rica em termos geológicos e com a importância cultural para a região tem sofrido pelo descaso da gestão pública com políticas ambientais para sua preservação e além disso, a degradação ou roubo de suas pedras por pessoas que transitam pela área também são uma grande ameaça a sua permanência. Pichações e uso indevido do local acabam por degradar não somente sua composição rochosa, mas também o próprio significado histórico que é carregado por essa imagem.

Apesar da cidade ter feito esforços para garantir a despoluição das águas e a conscientização da população quanto a importância da natureza para todo, ainda tem sido um desafio muito grande fazer com que a Pedra do Índio não se torne apenas um passado fotográfico. A cultura e o patrimônio devem estar em constante harmonia com as prioridades ambientais, assim talvez, caminhamos para a contemplação das rochas e sua restauração, sem desgastá-las.


Pedrá do Índio, foto antiga. Google 2019 





Pedra do Índio, foto atual. Google 2019 


Por: Paola Pessoa 




Bibliografia 

Brilha,(.2005). Património Geológico e Geoconservação: A Conservação da Natureza na sua Vertente Geológica. Palimage Editores, Braga, 190 p.


Gray, M. (2004). Geodiversity: valuing and conserving abiotic nature

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